
(Substituir “racista” por “xenófobo”, “homofóbico”, “misógino”, ou qualquer outra forma de militantância da opressão alheia)
Um racista é racista por ingenuidade; por insegurança; por preguiça.
Um racista é racista por ingenuidade porque, tal como os geocentristas que olham o céu e julgam que é o sol que se move, tomam a realidade pela superfície. São equivocados pela simplicidade juvenil com que veem o mundo. Polarizam todos os problemas em bem e mal, aliado e rival, em dicotomias, categorias, paletas. Recorrem a simplificações sobre a raça que já eram primitivas nos Descobrimentos. Ignoram a infinita complexidade de cada indivíduo e da sua narrativa pessoal e categorizam os outros por critérios de pré-escola (como cor, género ou orientação sexual) atribuindo a cada grupo outras características comuns (que não a cor o género ou a orientação sexual). Erro primário de generalização, que se ultrapassa depois de um Ensino Básico bem aproveitado.
Um racista é racista por insegurança porque uma mente pouco educada não tem muitas formas de se sentir valorizada. Deduz o valor próprio a partir da humilhação do Outro, por oposição; e não das riquezas indissolúveis do eu, como a cultura, a criatividade, a satisfação emocional e os ofícios que se domina (aprendam a tocar um instrumento, aprendam carpintaria, aprendam a fazer tapetes de arraiolos). Usa, por norma, o privilégio que detém (frequentemente sem mérito), para oprimir quem não o tem (por mais mérito que possua). O Homem que não se sente importante por si mesmo tem de se sentir importante pelo poder arbitrário que exerce sobre alguém (piscadela a alguns porteiros de discoteca).
Um racista é racista por preguiça porque recusa o trabalho intelectual que lhe permitiria deixar de ser ingénuo e inseguro. Na raiz de todas as motivações, nada importa para um Homem senão sentir-se bem com a sua identidade, sentir-se validado, relevante, seja qual for a forma como o consegue. E nao há forma saudável de se sentir bem, validado, relevante sem que trabalhe, até ao instante da morte, na sua relação com o mundo. Até que se torne tão robusto, por dentro, que nada o ameace, por fora. Sob a indulgência da Preguiça, o Homem recusa a ponderação que lhe diria que a perseguição do Outro vai acabar na perseguição dele próprio, por permissão da agressão como acto público. Eu ataco o outro, o outro acabará por me atacar a mim, porque se não lhe concedem o direito a ser defendido, vai defender-se sem Direito. Já há quase 500 anos, desde Hobbes, que o conceito se tornou óbvio. Vamos tentar a ousadia de não ser mais retrógados que há 500 anos.
Ninguém consegue viver sem sentir que a sua vida tem valor. É o centro de todas as razões que combatem a aparente falta de razão para existir. A beleza do pensamento é que é possível sentir valor próprio sem o contrapor ao valor do outro. Só precisamos substituir a humilhação pela educação, a agressão pela cultura, a preguiça pela reflexão.
O humano não é bom, nem mau. Simplesmente reflecte ou desleixa-se. Vamos reflectir. Não é uma questão de estética, mas de sobrevivência e dignidade.
Também para o racista, o melhor é deixar de ser racista.
Ser fraterno é, por temperamento ou por lógica, o melhor para todos.
Recomenda-se leitura:
. Eichman em Jerusalém, Hannah Arendt
. Se Esta Rua Falasse, James Baldwin
. O Leviatã, Thomas Hobbes