“A permissão à decadência foi o recurso à guilhotina. A invenção da distância entre a mão e a vida.” 3:11; 4. Terceiro tomo: Livro da Espera. A sustentação das derrocadas Os processos com que se acendiam, dentro da Morte, as breves manchas da vida, não tinham mudado, nos […]
Categoria: Slam
A primeira coisa que Aurélio sentiu, ao borrar sombras em mais um retrato a lápis do Don Draper, foi uma pressão no ouvido direito. No dia seguinte, aconteceu o mesmo com o ouvido esquerdo, e Aurélio reconheceu que estava surdo. Começou por ser apenas um abafar das coisas habituais, como se o aço […]
Não há talvez um de nós que não tenha sentido, mesmo que por um instante, a surpresa de uma plenitude inesperada. Uma forma muito limpa e imediata de sofrer a saturação da sensibilidade e de algo mais para além dela. Um estado sem voz, sem nome, em que as instruções do resto da vida […]
A solidão não é vazio, é cegueira. Em frente a Tudo. Na sua forma ruidosa – a dos poetas líricos e das melancolias de fim-de-tarde – a solidão é uma agressão à epiderme, expressa-se como uma agudeza de dolência. É um subproduto imediato da ausência – seja pela ausência do Outro, ou pela […]
Sem que o corpo se aperceba que se dissolve – na curva da pétala, na maciez da nuca, na lâmina de uma navalha – entregamos ao ar um quinhão de nós. Antes que toquemos as coisas, antes que sejam vistas, elas chegam até nós em pequenas emanações. Mesmo quando são ouvidas, não são […]
(Substituir “racista” por “xenófobo”, “homofóbico”, “misógino”, ou qualquer outra forma de militantância da opressão alheia) Um racista é racista por ingenuidade; por insegurança; por preguiça. Um racista é racista por ingenuidade porque, tal como os geocentristas que olham o céu e julgam que é o sol que se move, tomam a […]
A todos os irmãos constelados em mim. Nada, nunca, verdadeiramente, se toca. Entregamos o corpo desabrochado num abraço, aproximamos uma mão da curva de um flanco deitado – mas o nosso corpo jamais toca o outro, a nossa mão jamais toca o que procura. Habitamos o corpo e habitamos também as leis […]
A normalidade da deficiência Dizia-me o filho de uma doente, em surdina, que tinha passado a tarde com a mãe a comprar lenços. A ansiedade era notória – olhou-me de soslaio enquanto a mãe saía por momentos, tentou um pequeno riso nervoso – mas não deixava de ser apenas o espelho da lenta […]
Sob a abóbada da lua, no fio que escorre da aranha, ao éter se unia a grande sacerdotisa de Hellos. Colunas de adobe, como favos de mel, escorriam a matéria dourada da noite, continuavam – parecia – a pele de bronze que de pé estendia os braços através da escuridão. A meia lua de ouro, […]
Sopro é uma peça escrita por Tiago Rodrigues, Director Artístico do Teatro Nacional D. Maria II, estreada na 71ª edição do Festival de Avignon. A obra centra-se na ponto do teatro nacional, em actividade desde 1978, elemento-sombra que sopra as falas tragadas pelos fantasmas do palco, quando estas se evadem aos actores, seus […]